O mistério da Praia da Luz [ in Atlântico expresso ]
Jun 15th, 2007 by spokin
Jornalista Fernando,
já deve andar pelas ondas daí também, mas não te chegará toda esta nuvem de fundo que inunda um país no final da Primavera. Desapareceu aquela criança inglesa na Praia, da Luz, Algarve e o país parece que parou. Não me vou perder em considerações, pois não sou crítico dos polícias que estão a fazer o seu trabalho, mas não posso de deixar de te manifestar, Fernando, tu aí em cima da pedra, atrás da duna, o folclore que os nosso camaradas jornalistas por aqui realizam. E digo portugueses e ingleses, na grande maioria.
Vamos aos factos: Madeleine McCann desapareceu há uma semana quando os pais a deixaram num aldeamento dos milhares que abundam no Algarve para irem jantar a cerca de 50 metros de distância, contam os relatos. Ela e dois gémeos mais pequenos, com apenas dois anos. Que iam espreitar amiúde se as crianças estavam bem enquanto jantavam. Numa dessas deslocações constataram que Meddie, diminutivo da filha, tinha desaparecido. Até hoje!
Estão centenas de polícias portugueses no Algarve,
vieram já muitos outros de Inglaterra, detectives, tudo o que possas imaginar. E pistas? Nenhuma que se saiba. Quando demora assim muito, pelo que conheço, começo a desconfiar…Não me atrevo a avançar com explicações. Já não somos, Fernando, do tempo em que os jornalistas ajudavam a desvendar mistérios. Agora, só “retransmitimos” o que as autoridades querem que se saiba. E isso nunca passa pelo insucesso. E têm muitos, como todos nós. Há livros sobre crimes por resolver. O resto, dizem, os polícias que mandam, só atrapalha. Até acredito que sim. Mas, e os ingleses, Fernando? Alguém convence os jornalistas britânicos disso fora lá da terra deles? Nem pensar. Querem informação, novidades, “headlines” para abrir os noticiários, dê por onde der, aconteça o que acontecer, têm um país àvido, pendurado no destino de uma criança…o resto é aquela paisagem bucólica que conhecemos, os guardas da rainha e os originais táxis. Pelo menos é o que parece…
Lá, Fernando, como em todos os países, desaparecem centenas de crianças todos os anos pelas razões mais vergonhosas e inexplicáveis que continuam a caracterizar a raça humana. Admito mesmo que nesta semana já tenham perdido o paradeiro de várias. Mas esta cá fora é que os preocupa. E os nossos camaradas jornalistas ingleses sempre a soprarem nas brasas, para o fogo ser o mais incontrolável possível.
Os pais deixaram as três crianças sózinhas em casa, o apartamento está num complexo propriedade de ingleses, tem serviço de amas com quem os pais podem deixar os filhos…Mas isso de pouco importa, pelos vistos. Se o desaparecimento tivesse sido numa praia durante o dia tínhamos o país reduzido a um esqueleto, um antro de irresponsáveis. O piorio da Europa! Os hoteleiros em pânico, os jornais a dizerem o que julgavam saber e o que nunca confirmaram de Portugal, um arrasamento completo. Perdoem-me os britânicos, contra quem nada tenho, mas eles acham que a sua ilha é o único sítio “certo” do mundo. E isso não é verdade. Precisam abrir os olhos e ver em volta…
Dou-te só um exemplo do que fiquei a saber hoje: há dois meses desapareceu nas ilhas Canárias, em Espanha, um menino de sete anos. Ninguém sabe dele. Queres fazer um inquérito comigo? Quantas vezes foi isso noticiado no Reino Unido e quantas crianças desaparecidas lá abriram telejornais britânicos, como aconteceu com Meddie desde o início do ano? Prevejo o resultado mas fico sentado à espera… Recomendo-te que fiques aí na tua duna, depois de enxotares os cães raivosos…Um mediático abraço.
António Martins Neves
Publicado por Antonio Martins Neves em 11 Maio 2007,
in Atlântico expresso (blog)
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